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Um violonista nascido para brilhar

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Alexandre Gismonti recém lançou seu primeiro álbum e já se pode incluí-lo entre os que melhor caracterizam o violão como instrumento sinônimo de música popular. Violonista, sim, é o que o moço é, mas não só: seus ouvidos têm saber, suas mãos têm música de gostar.
 
Musicar para compor o mosaico vital que toca no coração e mexer na dor que fala ao alegre e ao mais triste, dando-lhes voz e a vez de se saberem não reféns da mediocridade: eis a sina deste músico nato. Foi o violão quem deu o norte para Alexandre Gismonti. Pudera: Egberto, seu pai, deve tê-lo ninado ao som das cordas de seus múltiplos instrumentos. E o menino parece ter se afeiçoado a elas tanto quanto à primeira bola de futebol.
 
Ele e seu instrumento, indivisíveis parceiros, inseparáveis companheiros a criar belezas e amplitudes com acordes e arpejos, com harmonias e melodias... Sentindo que para ser ainda mais Gismonti deveria se aconchegar o mais possível às cordas do violão, fez delas seu futuro, para o qual sua mão direita se apresenta com irretocável maturidade. Fortaleza e doçura em meio a gêneros musicais distintos, o álbum intercala boas composições do próprio Alexandre com clássicos bastante conhecidos. Graças a essa acertada decisão, aliada à mixagem competente, temos noção exata da exuberância deste instrumentista e compositor.
 
Arranjador, ele foi sutil ao escrever para o baixo de Mayo Pamplona e para as percussões de Felipe Cotta. Sabedor do risco de o som do baixo se amesquinhar, caso desse a ele a missão de simplesmente marcar o ritmo feito um “bumbo de cordas”, Alexandre permitiu ao baixista brilhar em momentos especiais. Assim é, por exemplo, em “Chora, Antônio” (composição dele, homenagem ao bisavô Antônio Gismonti), quando o baixo em arco tem estupenda participação, ou no improviso de “Arrasta-pé” (homenagem a Gilberto Gil).
 
E as percussões são simples, porém eficientes. Verdadeiro exercício de humildade a serviço da música presente com latente brilhantismo é este CD Alexandre Gismonti Trio (Fina Flor). Admirável é a interpretação dos clássicos, quando a fidelidade à linha melódica original, nas primeiras vezes em que são tocadas no arranjo, exprime tal reverência que engrandece sobremaneira os improvisos e os solos que a elas se seguem. Assim é com os dois de Dorival Caymmi, “O Bem do Mar” e “Saudade da Bahia” – cuja introdução feita pelo baixo em arco e pelo violão é belíssima –, com “Asa Branca” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), “Ainda Me Recordo” (Pixinguinha e Benedito Lacerda) e “Feira de Mangaio” (Sivuca e Glorinha Gadelha).

Violonista, sim, é o que ele é, mas não só: seu olhar é musical e seu ouvido não treme, muito menos teme. Seu som é de violeiro, de chorão, de forrozeiro, de cancionista e de sambista. Suas mãos têm brasilidade brotando nas palmas e seus dedos têm a ligeireza do som que cria e recria.  A alma é nordestina, carioca... Grande violonista é o que é Alexandre Gismonti.

* Aquiles Rique Reis é músico e vocalista do MPB4
 

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