A arte faz parte da essência humana há milhões de anos, desde o momento em que o homem sentiu a necessidade de se expressar seus sentimentos, através da arte rupestre encontradas nas cavernas pré-históricas. De lá para cá, obviamente, muita coisa mudou. O que não mudou foi o interesse que a arte despertou ao longo dos tempos.
Na Grécia, berço da civilização ocidental, servia como pilar. Para os romanos, tinham importância semelhante. Foi lá, inclusive, que surgiu o conceito de pão e circo, ou seja, comida e diversão para "domar" a população e tirar o foco dos problemas imperiais. A tática surtiu efeito e serviu de inspiração para governos tidos como totalitários amainarem a insatisfação do povo. Levando o assunto para o campo do cinema, já que a vida imita a arte, e porque não, a arte imita a vida, dois bons exemplos retratam tal panorama.
MEPHISTO
Cronologicamente, tanto em relação ao ano de produção quanto ao período retratado, destaca-se "Mephisto" (1980). O filme é inspirado na obra máxima de Goethe, "Fausto", em que o médico vende a alma ao diabo, no caso, Mephistófoles, para conseguir as benesses desejadas. Aqui, no entanto, surge uma analogia extremamente interessante. Em 1930, na Alemanha pré-nazista, vemos o ambicioso ator Hendrik Hotgën (Klaus Maria Brandauer) obcecado pela carreira e indiferente à política - surge uma inevitável lembrança com o poema "O Analfabeto Político", do também alemão Berthold Bretch.
Quando os nazistas ascedem ao poder, Hendrik aproveita a fuga de parte da classe artística alemã para consolidar-se como o maior ator alemão do período, protagonizando peças teatrais de interesse da propaganda política da extrema direita. Nas encenações teatrais de "Fausto", ele atinge o ápice como Mephistófoles, extasiando as lideranças nazistas. Ao contrário de seu personagem, que compra a alma dos incautos em troca de poder e sucesso, Hendrik faz o inverso: praticamente a vende, ignorando o amor e a amizade em busca cada vez mais do sucesso oferecido pelo regime, pagando um preço que pode ser alto demais.
No final das contas, temos uma arte corrompida, que funciona de acordo com os interesses do regime. Detalhe: o filme venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1981. Sem dúvida, uma bela credencial, respaldada pela interpretação espetacular de Brandauer.
A VIDA DOS OUTROS
O outro filme é "A Vida dos Outros" (2006), outro ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Passado na década de 1980, em pleno regime comunista na Alemanha Oriental, mostra mais uma vez como a arte pode ser manipulada pelo totalitarismo. Ao melhor estilo de "1984", de George Orwell, onde tudo se sabe e tudo se vê, tem-se aqui a história real do mais famoso dramaturgo do país, que coincidência ou não, chama-se Georg (Sebastian Kock). Inicialmente, seu prestígio o coloca acima de qualquer suspeita, mesmo com suas ligações secretas com outros artistas tidos como subversivos. Mas quando o ministro da Cultura se apaixona por sua namorada Christa (Martina Gedeck), a atriz mais popular do lado comunista do Muro, a linha tênue entre resignação e insurgência começa a se romper. Inicia-se um perigoso jogo de espionagem quando o implacável Gerard (Ülrich Mühe) é designado a espionar o autor para achar uma brecha para tachá-lo de inimigo do regime.
Paralelamente, o ministro encurrala a atriz com uma chantagem que provoca danos irreversíveis. Os textos datilografados propositalmente em tinta vermelha por Georg mostram o nível de cautela usado para driblar o sistema, mostrando a que ponto chegou a paranoia criada pela Guerra Fria entre os dois blocos ideológicos. Sob o domínio da extrema esquerda, vemos que pouco mudou na Alemanha em relação aos sombrios tempos nazistas.
A arte, também aqui, não passa de mero joguete para servir aos interesses estatais, que não raro, se confudem com os interesses de seus dirigentes. A direção de arte é um dos pontos altos do filme, retratando com fidelidade a Berlim comunista, seus hábitos e costumes. Vale ressaltar como a tecnologia usada nas arapongagens ainda engatinhava naqueles tempos. As atuações do trio principal de atores também impressionam.
* João Gabriel P.C. Freitas é jornalista do Jornal da Cidade. O seu e-mail é Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
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