Três anos após o ótimo “Volver”, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar retorna ao cinema com “Abraços Partidos”, trazendo novamente no elenco as espanholas Blanca Portillo e Penélope Cruz, num filme sobre a fragilidade da alma diante perdas prematuras.
O cineasta entende o cinema como um refúgio e como um espelho, detalhando temas do dia a dia sem pudores, com impressivas narrativas envolvendo tabus, radicando o desejo tendo como planos de fundo cenários abarrotados de cores picantes somados a figurinos requintados e fotografias contrastadas em seu melhor estilo. Se uma de suas maiores características é favorecer o desenvolvimento de suas personagens femininas, nesse novo trabalho a história gira ao redor de um homem.
Mateo Blanco é um ex-cineasta que após um acidente automobilístico perde a visão e a mulher que amava, abandonando de vez o posto de realizador de filmes para seguir como roteirista, adotando o pseudônimo Harry Caine. A história de Mateo nos é contada de maneira cronológica, opção de Almodóvar por mesclar personagens e a diferença considerável entre anos cujas primeiras lembranças nos leva ao início dos anos 90. Naturalmente, canções espanholas se exaltam à medida que as cenas se entrelaçam vinculando os personagens.
De início confuso, a resolução se dá graças a um incidente numa danceteria, onde o jovem Diego (Tamar Novas) desmaia, sendo socorrido mais tarde por Mateo. Episódio que incita as recordações do ex-diretor, seus amores antigos e trabalhos consagrados, bem como as razões que o levaram até ali. Mérito do ator Lluís Homar que transmite uma serenidade para os personagens Blanco/Caine ofuscando as preferências de Almodóvar, embora ainda conte com Penélope Cruz, sua musa absoluta, vivendo a charmosa atriz Lena, protagonista central de duas histórias da narrativa: o filme, e o filme dentro do filme. Uma brecha para o diretor denunciar sua adoração pelo cinema. E também por Penélope.
Ela é a causa indireta da trama envolta do desejo de dois homens, saliente no relacionamento que a atriz irá ter com a câmera do diretor desvendando-a e exibindo-a em beleza estética e artística, com gestos e tons de consumo da luxúria. O filme ganha forma pelas surpresas do roteiro, mas falha pelo excesso de explicações, algo incomum no cinema de Almodóvar.
No entanto, é visualmente um esplêndido trabalho - e se é a visão a responsável pela desgraça de Mateo Blanco, a imagem morre junto ao amor pelo belo que o cineasta tanto era apaixonado, restando somente as lembranças do então Harry Caine. Lembra uma frase do próprio diretor, mesmo que esteja um pouco fora de contexto, é perfeitamente cabível: “afinal, o essencial é isso: sobreviver e manter a paixão”. E o que nos resta?
* Marcelo Leme é graduando em Psicologia. O seu e-mail é Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.






